Garota fora de época






Ju Mathias é produtora de moda. Até o ano passado, ela assinou o figurino de Lilian Pacce no programa GNT Fashion. Hoje, ela trabalha com publicidade e televisão, e elabora projetos secretos. 


Quando a Ju apareceu na noite de Floripa, uns 10 anos atrás, com seu cabelo de calopsita, foi como se a Madona estivesse cantando no meu ouvido: Who´s that Girl? Além daquele cabelinho moderno, ela tinha olhos puxados e uns dentões brancos, milimetricamente tortinhos, que melhoravam a coisa toda. Ela vestia umas roupas diferentonas, blusas florais de brechó, e muitos acessórios, que me deixavam pensando: onde foi que ela comprou isso? A Ju, aquela garota popular de São Paulo, que estudava Moda, era a minha It Girl em Floripa. 






Eu não a conhecia de verdade, eu a contemplava de longe. E a essas pessoas que a gente admira, e a quem todo mundo se refere com nome e sobrenome (Ju-Mathias), costumamos atribuir uma personalidade cool e impenetrável. E daí que, fruto de uma zoeira do meu subconsciente, a Ju foi a primeira pessoa que passou pela minha cabeça quando pensamos em fazer uma seção de perfis no site do Alabama. Eu tive que me aproximar da Ju, e acabei me surpreendendo maravilhosamente. Ela é, sim, cool, segura e sexy, eu acrescentaria. Mas é também alegre, aberta e disponível. Tanto, que ela não faz o tipo que prefere a discrição do inverno, mas a jogação do Carnaval. Aqui, um post dela no Facebook para provar:  



Aliás, decidimos usar o carnaval como tema desse ensaio, depois de ela ter me contado que estava envolvida na criação de um bloco de rua em São Paulo, o Sereianos. O resultado é que a Ju, o fotógrafo Tefo Maccarini e eu nos divertimos horrores produzindo esse editorial purpurinado.












































Tivemos tempo para fotos analógicas na Galeria Metrópole, na República, em São Paulo, e uma coisa que a Ju deixou escapar por lá não me saiu mais da cabeça. Ela disse que já tinha quebrado muitos ossos do corpo. Eis que assim, conversando com ela no Facebook meses depois, é revelada essa história incrível, devidamente copiada e colada do chat aqui:

"Eu estava na casa de uns amigos em 2012 e queria ir embora. Quase todos já tinham ido dormir e eu não achava a chave pra abrir a porta. Foi então que tive a brilhante ideia de pular o muro. Eu tava toda montada, de salto, mini saia, meia calça e uma blusa de paetê. Muito determinada. Quando cheguei em cima, percebi que não tinha como descer. Mas antes de gritar pra alguém vir com uma escada, o telhadinho quebrou e me espatifei no chão. Foi tão foda que apaguei na hora. Acordei com os bombeiros me colocando no carro. Eu gritava muito de dor. Foi a pior coisa que já me aconteceu. Bati a cabeça, ralei o rosto, desloquei o quadril, quebrei a clavícula e o punho. No punho, tive que fazer cirurgia e colocar pino depois. Só entendi o que aconteceu no hospital, de saia preta e blusa dos Thundercats. Eu lembro que no hospital, quando foram me atender, eles precisavam tirar minha roupa, mas como não sabiam como eu tava, eles CORTARAM MEU LOOK! Eu gritava no hospital pra não cortarem minha roupa. Falava que era de desfile. E era mesmo. Eu guardei um tempo pensando que podia recuperar, mas tava perdida já."




Na entrevista abaixo, que inclui uma gafe fashion com Gisele Bundchen, um abraço demorado de Ney Matogrosso e rituais com Ayahuasca, conheça um pouco mais dessa criatura fascinante. Antes, um pequeno exercício:




Eu sou de amores. Câncer com ascendente em libra e lua em câncer é o amor encarnado rs.

Eu adoraria passar um tempo na Índia.

O melhor look que já usei eu não lembro.

Eu amo quando ganho presente.

Todo dia eu agradeço por não ter uma rotina e não conseguir responder essa pergunta melhor.

Eu nunca mais vou a uma rave.

Eu sempre tento ver o lado bom das coisas.

Nos meus dias de folga você vai me ver em casa assistindo filme ou em busca de uma cachoeira.

Meu lugar preferido é Paraty.

Eu estou apaixonada por um projeto novo que estou começando.

Eu me arrependo de ter feito californiana no cabelo.

Seu eu pudesse eu usaria mais chinelo.

O meu estilo é básico e urbano.

O filme que mais me marcou foi depois de dias pensando descobri que não consigo escolher.

As coisas que mais me inspiram são pessoas.

As pessoas que mais me inspiram são as comuns.

A comida que me faz feliz é Tacacá.

Um dia quero aprender a cozinhar.

Sempre tive o sonho de ser uma sereia.

Eu me acho tranquila.

Eu acho que as pessoas me acham louca.

Tenho ouvido Alt-J, mas eu nunca paro com os clássicos da MPB nem por uma semana.

Eu não conseguiria viver sem rir.




Você se vê como uma garota ou uma mulher?
Mulher, sem dúvida.

Sobre o seu trabalho no GNT Fashion. Como foi ter feito figurino pra uma das pessoas mais respeitadas da moda no Brasil, logo no início da carreira?
Quando surgiu o convite a primeira sensação foi um misto de pânico e felicidade. Fiquei sem dormir uns três dias depois do telefonema. Fiquei quatro anos com a Lilian e sempre digo que ao lado dela aprendi mais sobre moda do que na faculdade. A Lilian é uma professora nata. Ela teve paciência de me ensinar quase tudo que eu sei hoje sobre minha profissão. Sou muito grata por ter uma oportunidade tão boa logo no começo.

Tem alguma experiência marcante pra contar durante esse tempo?
Aconteceu muita coisa engraçada nesses quatro anos. Mas lembro de uma vez que a Lilian foi entrevistar a Gisele, não lembro bem a ocasião, e as duas estavam quase com o mesmo look. Acho que isso é o pavor de qualquer stylist. Porém quando as duas se viram caíram na risada e ainda fizeram fotos juntas. Nessa profissão, ainda mais ao lado da Lilian, tive oportunidade de conhecer muita gente que eu admiro, mas ninguém me deixou tão emocionada quanto o Ney Matogrosso. Assim que ele entrou na sala fiquei trêmula. Sim, eu sou muito fã. Ele cumprimentou a equipe toda e quando chegou na minha vez mal consegui falar, só dei um abraço apertado nele. Passamos o dia todo com ele e foi uma verdadeira aula sobre a vida. Até hoje lembro de algumas frases que me marcaram. Tanto que no final do dia a diretora e eu ficamos insistindo muito para que fosse um especial só dele. E não tinha como ser diferente. Acho que foi o primeiro programa sobre apenas um personagem. No dia seguinte fui com a Lilian assistir ao show do Ney. Quando as luzes do auditório acenderam, o empresário dele nos viu e nos convidou para o camarim. Nesse dia o nervosismo havia passado e consegui conversar com ele rs. Não sei se ele percebeu o quanto eu gostava dele, mas ele me abraçou e ficamos assim quase o tempo enquanto conversava comigo e com todas as outras pessoas que estavam lá. Esse dia foi foda.

Qual o seu trabalho dos sonhos?
Quanto a figurino e produção, fazer longa e teatro. Mas agora tenho um projeto dos sonhos que ainda não posso falar, mas logo mais te conto.

O que mais tem te interessado hoje, além da moda?
Eu sou muito ligada a assuntos místicos em geral. Sou viciada em tudo o que está relacionado com cristais. Inclusive estou fazendo um curso de terapia holística. Em 2013, depois do acidente (em que ela quebrou a clavícula e o punho), foi um ano que me isolei de quase tudo e comecei a buscar algo que nem sabia o que era. Acho que foi meu primeiro passo de verdade para começar um trabalho interno e espiritualizado. No final de 2014, eu conheci um terapeuta taoista. Comecei fazendo acupuntura com ele e logo em seguida ele me apresentou a Ayahuasca. Depois disso, virou uma chave, e agora muitas coisas fazem sentido pra mim. Inclusive o tombo. Claro que ainda preciso aprender muita coisa, mas eu nem sei como descrever essa experiência pra mim. Acho que libertadora. Hoje eu continuo indo nos rituais de Ayahuasca, inclusive trabalhando, ajudando as pessoas. Eles chamam isso de madrinha. Cada vez eu me conecto mais comigo mesma. E assim vou me ouvindo de verdade, descobrindo e redescobrindo novas paixões, como os cristais. Desde muito cedo eu gosto de pedras. Lembro de sempre ter em casa. Isso não veio da minha família. Na verdade eu que levei isso pra eles. Os cristais são como tecnologias da natureza para nos harmonizar e também os ambientes. Eu sempre ando com pelo menos um cristal em mim, normalmente em cima de algum chakra, e a pedra do chakra também. Me assumi hippie de alma (risos). Além disso, eu acho as pedras lindas. Gosto de usar bruta mesmo.

Você se sente engajada em alguma causa social atual? Qual?
Com tudo o que está acontecendo não tem como ficar alheia da situação política do Brasil. Não sei se isso se encaixa em causa social. Mas acredito que é importante se informar e fazer o que for possível para não deixar passar impune esses absurdos. Também é impossível ficar alheia ao feminismo e à luta LGBT. No fim todos esses assuntos são a mesma coisa. São direitos básicos que todas as pessoas deveriam ter assegurados pelo Estado. Um Estado laico e democrático.

Qual a lembrança de infância que você mais ama?
Uma vez estava com meu pai olhando as estrelas e ele apontou para uma estrela cadente. Eu não vi, talvez não tivesse estrela nenhuma. Elas são muito rápidas, não é difícil perder uma piscando os olhos, pensei. Na manhã seguinte ele disse que aquela estrela havia caído no nosso jardim e me pediu pra procurar. No meio das plantas encontrei uma estrela de plástico que brilhava no escuro. Eu jurava que era uma estrela de verdade. Alguns anos depois fiz a mesma coisa com a minha irmã mais nova. Temos 6 anos de diferença. Agora, se for pra falar o que eu mais gostava de fazer era ir à praia. Até hoje na verdade. Isso não mudou.




Fotos analógicas por Jana Cavalli e Guto Nunes ///






















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